Desempenho auditivo: o que a evidência mostra
A pergunta mais comum — qual marca ouve melhor? — não tem a resposta que a propaganda sugere. A evidência de boa qualidade mostra que as três marcas são funcionalmente equivalentes para entender fala. O que mais pesa no resultado é o paciente e o processo: implante precoce, eletrodo certo, bom ajuste e reabilitação.
A pergunta que todo paciente faz — “qual marca ouve melhor?” — não tem a resposta que o marketing sugere. Para o desfecho que mais importa, reconhecimento de fala, nenhuma marca demonstrou superioridade consistente sobre as outras. As diferenças que aparecem em estudos isolados quase sempre se explicam por metodologia, ajuste (fitting) e fatores do próprio paciente — não pelo hardware. Esta página sintetiza a evidência por domínio, com amostra e referência, separando o que é diferença real do que é ruído estatístico.
O problema metodológico que define o campo
Antes dos números, uma ressalva que muda como tudo abaixo deve ser lido. A literatura comparativa entre fabricantes é escassa e de qualidade baixa. A scoping review de Tzvi-Minker & Keck (Audiol Res, 2023) triou 1.592 artigos para incluir apenas 42 estudos. Desses, apenas 6 permitiam comparação direta em condição idêntica (60 dB SPL, não-adaptativo, no silêncio) — 3 com Cochlear, 3 com MED-EL. Só 2 dos 42 fizeram cálculo de poder estatístico, e os autores estimam que seria preciso um mínimo de 42 sujeitos por grupo para uma comparação válida — patamar que praticamente nenhum estudo multimarca atinge. A idade média do dispositivo estudado era de 7 anos na publicação; algumas comparações cruzavam gerações separadas por até 23 anos de tecnologia.
A consequência prática: quando um estudo “mostra” que a marca X ganha da Y, na imensa maioria das vezes ele compara coortes diferentes, com fitting diferente e gerações diferentes, sem controlar duração de surdez, etiologia, idade ou reabilitação. A variabilidade entre pacientes dentro de uma mesma marca é maior do que a variabilidade entre marcas.
Fala no silêncio
No reconhecimento de fala em ambiente silencioso, a melhor evidência converge para equivalência funcional entre as marcas. A revisão sistemática de Brown et al. (Otology & Neurotology, 2025), reunindo 37 estudos de pacientes implantados entre 1983 e 2019 com Cochlear, MED-EL ou Advanced Bionics, não encontrou associação significativa entre a geração/ano do implante e o reconhecimento de sentenças aos 12 meses — e os autores concluem que, sem nova estratégia de codificação desde 2007, os escores em silêncio também não melhoraram de forma significativa desde então. A meta-análise longitudinal de Ma et al. (Laryngoscope, 2023) mostra o mesmo padrão temporal em todas as marcas: o ganho se concentra no primeiro ano e estabiliza depois.
As diferenças que aparecem em estudos isolados são desprezíveis e inconsistentes, sem permitir afirmação de superioridade de marca. Vale registrar que a Advanced Bionics é o fabricante menos representado na literatura comparativa — o que, por si só, recomenda cautela contra qualquer ranking entre marcas em fala no silêncio.
Fala no ruído
Esta é a fronteira clínica real — é no ruído que o paciente sofre — e, paradoxalmente, onde a evidência comparativa é mais fraca. Cerca de 94% dos testes de fala na literatura foram feitos no ruído, mas com relações sinal-ruído e níveis tão heterogêneos que não permitem metanálise entre marcas.
O dado histórico mais citado, Haumann, Lenarz & Büchner (ORL, 2010) — método adaptativo “roving-level”, 55 sujeitos, 11 por sistema —, mostrou desvantagem clara do processador Freedom (Cochlear) frente ao Opus 2 (MED-EL). Ressalva decisiva: ambos são processadores de gerações já descontinuadas, e esse resultado não se transfere para os equipamentos atuais. Spahr et al. (2007), comparando as três marcas, encontrou diferenças em vogais e sentenças no ruído, mas demonstrou que todos os dispositivos melhoravam ao se ajustar o input dynamic range — ou seja, o achado foi sobre parâmetro de processamento, não sobre marca vencedora.
O ponto central: o salto de desempenho no ruído dos últimos anos veio de classificação automática de cena e redução de ruído — efeito dentro de cada marca, não entre marcas. O processador Naída M (AB) ganhou até 5 dB / cerca de 40% no ruído frente ao seu antecessor (2024). As três marcas têm recursos equivalentes (Cochlear: SCAN/ForwardFocus; MED-EL: ASM/adaptive intelligence). O processador atual e seus algoritmos pesam mais que a escolha de fabricante.
Percepção musical
Domínio em que a MED-EL aparece favoravelmente — mas com evidência fraca e majoritariamente subjetiva. Dos 42 estudos, 9 tocaram em música e não houve dois usando o mesmo teste. O trabalho mais limpo é Harris, Gibson et al. (Acta Otolaryngol, 2011), com desenho intra-individual que anula variáveis de paciente: 6 pacientes pós-linguais com Cochlear Nucleus num ouvido e MED-EL SONATA no contralateral. Em todos os testes objetivos de discriminação musical e fala no ruído, não houve diferença estatisticamente significativa. No subjetivo, 4 de 5 acharam o MED-EL melhor para música, descrevendo o som como mais natural, menos metálico. A hipótese mecanicística — eletrodo mais longo, inserção mais profunda, fine structure coding — é plausível, mas o n=6 impede generalização.
Um achado mais acionável que a marca: o anatomy-based fitting (ajuste tonotópico guiado por TC) melhora fala no ruído em estudos crossover da MED-EL (Kurz et al., 2024, n=12, SRT −6,49 vs −4,8 dB SNR, p=0,008). A direção é consistente — reduzir o descasamento tonotópico ajuda —, embora a evidência de ganho musical subjetivo por esse método ainda seja inconsistente. A maior alavanca para música é o método de ajuste, não a troca de fabricante.
Preservação de audição residual e EAS
Aqui a diferença real não é entre marcas, e sim entre tipos de eletrodo: o array fino, reto e de parede lateral é mais atraumático que o perimodiolar. A revisão sistemática de Van de Heyning et al. (Front Surg, 2022) — só eletrodos MED-EL FLEX, 40 estudos, 380 pacientes — encontrou preservação de 93,4% (FLEX24, 4 meses) a 86,8% (FLEX28/SOFT, 12 meses), sem diferença significativa por comprimento. A coorte comparativa de Zimmermann & Sucher (J Otolaryngol HNS, 2025) — 311 adultos, 321 orelhas — colocou as marcas lado a lado:
| Eletrodo | Preservação a 12 meses |
|---|---|
| Parede lateral MED-EL (Synchrony Flex) | 48,6% |
| Parede lateral Cochlear (CI522/622) | 43,1% |
| Perimodiolar Cochlear (CI532/632) | 37,4% |
A conclusão dos autores: a mudança no PTA de baixa frequência foi semelhante entre eletrodos de parede lateral e perimodiolar quando ajustada ao baseline (AB não entrou no estudo). Se o objetivo é preservar audição residual ou viabilizar EAS, a decisão é de eletrodo — fino, reto, parede lateral —, não de marca. Cochlear (Slim Straight) e MED-EL (FLEX, incl. SYNCHRONY 2 EAS) empatam como opções naturais.
Desfechos pediátricos
Em crianças, o que dita o desfecho de fala e linguagem é idade de implante (idealmente abaixo de 12 meses, janela de plasticidade), uso consistente do dispositivo, integridade do nervo coclear, etiologia e reabilitação — não a marca. Estudos comparando Nucleus, Clarion/AB e MED-EL não mostram vantagem de fabricante; uso contínuo e intervenção precoce superam a escolha de marca.
A única exceção pediátrica marca-específica robusta é a localização sonora. Killan et al. (Ear Hear, 2019) — coorte de 127 crianças com implante bilateral, controlando para fabricante — encontrou erro RMS médio global de 25,4°, com MED-EL localizando 5,8° melhor que Cochlear (p<0,01) e 9,2° melhor que AB (p<0,05). O efeito é plausivelmente ligado ao fine structure coding (pistas temporais interaurais) e ao eletrodo mais longo — coerente com a preferência musical e a localização em adultos, todos apontando na mesma direção fisiológica. Mas é uma vantagem de poucos graus que não se traduz em vantagem de fala.
O artefato que engana até médicos: audiograma com IC ≠ desempenho
Vale o alerta explícito porque distorce relatórios. Capach et al. (Audiol Res, 2025), em dois datasets (NYU n=172; ASAN n=120), mediu limiares com o IC ligado e encontrou a Cochlear com audiograma mais “fechado” (mediana 26,7 dB vs AB 30,0 vs MED-EL 34,6; p<0,001). A explicação dos autores: a diferença vem da abordagem de programação dos T-levels — a Cochlear usa limiares medidos, as concorrentes usam estimados —, não de superioridade do dispositivo. Um audiograma aidado mais bonito é artefato de fitting, não prova de melhor audição funcional. Para o paciente, o que importa é fala e qualidade de vida, onde a diferença some.
Mais canais não significa melhor fala
A premissa intuitiva de que mais canais ou eletrodos rendem melhor desempenho não se sustenta para fala. O recurso Fidelity 120 da AB (120 bandas via current steering) mostrou, em estudo within-subject (2010-2011), ganho pequeno e inconsistente — maior em pistas espectrais de vogais, com muitos usuários sem benefício claro. O número nominal de canais não prediz desempenho de fala.
Uma ressalva de segurança que pesa na escolha
Honestidade sobre o histórico exige registrar o recall do AB HiRes Ultra / Ultra 3D: a FDA conduziu uma ação corretiva de campo voluntária em fevereiro de 2020 por degradação de audição (ingresso de fluido no eletrodo, impedâncias baixas nos eletrodos basais). À época, de mais de 16.000 implantados, menos de 0,5% haviam sido explantados — mas coortes institucionais mostraram estrago muito maior (Gärtner et al., Laryngoscope 2022: 181 de 349 dispositivos com anomalia, 120 já explantados; sobrevida mediana sem anomalia de cerca de 2,9 anos). O dispositivo atual foi corrigido e re-aprovado. Isso não condena a marca — a própria sub-representação da AB na literatura significa que ausência de dados não é evidência de inferioridade —, mas a falha foi documentada e revisada pela FDA, e o paciente tem direito de saber. Esse evento é detalhado na página de confiabilidade e recalls.
Síntese para a conversa com o paciente
- Nenhuma marca é consistentemente superior em reconhecimento de fala, no silêncio ou no ruído. A evidência de melhor qualidade converge para equivalência funcional.
- Os preditores reais de desempenho são do paciente e do processo: duração da surdez, etiologia, idade, integridade neural, uso consistente, reabilitação fonoaudiológica e qualidade do fitting.
- A maior alavanca acionável hoje não é a marca — é implante precoce, eletrodo adequado ao objetivo, fitting tonotópico quando disponível e reabilitação.
Lacunas declaradas: não existe metanálise ou ensaio randomizado adequadamente potente comparando reconhecimento de fala no ruído entre as gerações atuais (Nexa, SYNCHRONY 2, HiRes Ultra 3D); a AB é sistematicamente sub-representada na literatura comparativa; e não há registro brasileiro próprio de desempenho por marca — a base é internacional.
Fontes desta página (15)
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- https://www.frontiersin.org/journals/audiology-and-otology/articles/10.3389/fauot.2024.1456413/full
- https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0165587605002351
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35531974/
Pendente de revisão clínica · atualizado em 10 de junho de 2026