Compatibilidade com ressonância magnética
Quem usa implante coclear pode fazer ressonância magnética com segurança nos três modelos atuais, sem precisar de cirurgia para tirar o ímã. O que muda é a qualidade da imagem do lado do implante: o ímã interno gera uma sombra que pode atrapalhar o exame daquele lado, e isso vale para todas as marcas por igual.
A compatibilidade com RM separa-se em duas perguntas que costumam ser fundidas e precisam ser mantidas distintas, porque têm respostas diferentes: (1) o exame pode ser feito com segurança, sem cirurgia? e (2) a imagem do lado implantado será diagnóstica? Para os três implantes atuais a resposta à primeira pergunta é sim, em 1,5 T e 3,0 T, com o ímã no lugar e sem bandagem. A resposta à segunda continua sendo, em grau variável, não — limitação física do ímã interno, independente de fabricante.
Comparativo por modelo
| Modelo | 1,5 T | 3,0 T | Remoção do ímã | Bandagem/compressão | Mecanismo do ímã |
|---|---|---|---|---|---|
| Cochlear Nucleus Nexa (atual) | Condicional, ímã no lugar | Condicional, ímã no lugar | Não (nem em 3,0 T) | Não | Ímã rotativo que se alinha ao campo |
| MED-EL SYNCHRONY 2 (atual) | Condicional, ímã no lugar | Condicional, ímã no lugar | Não (opção eletiva por artefato) | Não | Ímã S-Vector auto-alinhante, 25% mais forte que a 1ª geração |
| AB HiRes Ultra 3D (atual) | Condicional, ímã no lugar | Condicional, ímã no lugar | Não | Não | Ímã 3D — 4 hastes magnéticas rotativas, alinham nos eixos X/Y/Z |
| Nucleus Profile Plus (geração 2019, comercializado) | Ímã no lugar | Ímã no lugar | Não | Não | Mesmo sistema RM do Nexa |
| Nucleus Profile CI532/512 (legado) | Ímã no lugar + MRI Kit | Ímã removido cirurgicamente | Sim, em 3,0 T | Sim, em 1,5 T | Ímã axial fixo |
| Cochlear Freedom / CI24RE / CI422 (legado) | Ímã no lugar + MRI Kit | Ímã removido | Sim, em 3,0 T | Sim | Ímã axial fixo |
| Cochlear CI22M (legado antigo) | Condicional só com ímã removível + Kit; senão contraindicado | Contraindicado | Sim, para qualquer RM | Sim | Ímã antigo |
| MED-EL CONCERTO / SONATA (legado) | Condicional (≤1,5 T), ímã no lugar | Não suportado (1,5 T é o teto) | Não (em 1,5 T) | Não | Ímã fixo |
| AB HiRes Ultra não-3D (legado) | Ímã no lugar + bandagem | Ímã removido cirurgicamente | Sim, em 3,0 T | Sim, em 1,5 T | Ímã fixo |
| AB HiRes 90K / CII (legado antigo) | Ímã no lugar com bandagem ou remoção | Não indicado | Sim | Sim | Ímã removível |
Os três degraus históricos
A evolução não foi linear nem simultânea entre as marcas. Vale entender as três eras, porque a base instalada de pacientes da SONORA está espalhada por todas elas:
- Ímã removível obrigatório — qualquer RM, mesmo 1,5 T, frequentemente exigia cirurgia para retirar o ímã (CI22M; AB CII/90K).
- 1,5 T com ímã, 3,0 T só removendo — RM de rotina viável sem cirurgia, mas 3,0 T ainda exigia remoção ou era impossível (Nucleus Profile, Freedom; CONCERTO/SONATA limitados a 1,5 T; HiRes Ultra com bandagem em 1,5 T).
- Sem remoção em 1,5 e 3,0 T, sem bandagem — a geração atual (Nexa, Profile Plus, SYNCHRONY 2, HiRes Ultra 3D).
Artefato e impacto no seguimento neuro/otológico
Aqui está o ponto clinicamente decisivo e o mais subestimado pelo marketing. Eliminar a remoção do ímã resolveu segurança, não resolveu artefato. O ímã interno gera um vazio de sinal (signal void) grande mesmo nos sistemas modernos. Medições em cadáver com o SYNCHRONY (Scientific Reports, 2022), em 3,0 T:
| Sequência | Vazio de sinal (3,0 T) |
|---|---|
| T2-TSE | 66 × 117 × 98 mm |
| T2-TIRM | 121 × 117 × 136 mm |
| T1-MPRAGE | 88 × 122 × 140 mm |
O que isso significa na prática:
- Estruturas ipsilaterais ao implante (lobo temporal, fossa posterior, ângulo pontocerebelar, conduto auditivo interno, hipocampo ipsilateral) podem ficar parcial ou totalmente não-avaliáveis. Em estudo dedicado (ímã de quatro hastes, cadáver), a imagem foi diagnóstica em apenas 9 de 14 estruturas ipsilaterais em ao menos um plano.
- Estruturas contralaterais permanecem bem visíveis em praticamente todas as condições.
- 1,5 T produz artefato menor que 3,0 T: 7–10 mm menor em T2, e de 12 a 43 mm menor em T1. Para RM de crânio com o ímã no lugar, os autores recomendam preferir 1,5 T quando o alvo é o encéfalo do lado implantado.
- Difusão (EPI/DWI) — crítica para AVC agudo e para colesteatoma por DWI — é não-diagnóstica com qualquer implante coclear, de qualquer marca. Limite físico, não de fabricante.
Mitigação: preferir 1,5 T quando o alvo é o encéfalo ipsilateral; sequências de redução de artefato metálico (MARS/SEMAC/VAT) e priorizar T2-TSE; e, em último caso, remoção cirúrgica eletiva do ímã por motivo de qualidade de imagem — opção formalmente oferecida na linha MED-EL (SYNCHRONY, SYNCHRONY ST, SYNCHRONY 2, SONATA 2) quando a RM de crânio for indispensável e o artefato inviabilizar o diagnóstico. Estudo em cadáver (PLOS One) demonstrou ganho diagnóstico real com a remoção, tanto em 1,5 T quanto em 3,0 T.
O diferencial histórico da MED-EL e a paridade atual
Por anos, a MED-EL deteve vantagem real e verificável em RM. A linha SYNCHRONY foi a primeira aprovada para 3,0 T com o ímã no lugar, num período em que Cochlear e AB ainda exigiam remoção cirúrgica do ímã ou bandagem compressiva para 3,0 T. Esse diferencial era legítimo, não retórica de fabricante, e influenciou corretamente a escolha de implante para pacientes com previsão de seguimento por RM. Honestidade sobre o presente, porém: esse diferencial foi neutralizado. A geração atual das três marcas — Nexa (ímã rotativo), SYNCHRONY 2 (S-Vector), HiRes Ultra 3D (ímã de quatro hastes) — cobre 1,5 T e 3,0 T sem remoção e sem bandagem. Em segurança de RM, os três atuais estão em paridade. O artefato grande persiste em todos eles, igualmente, porque deriva da presença do ímã, não do seu mecanismo de alinhamento.
Implicação prática: a compatibilidade com RM deixou de ser critério de desempate entre os três sistemas atuais. A decisão deve recair sobre eletrodo, processador, plataforma e suporte local. A MED-EL mantém a opção de remoção eletiva do ímã mais madura e documentada, o que pode pesar em casos extremos de necessidade de imagem ipsilateral de alta qualidade. E, para o seguimento, dois pontos permanecem acionáveis e independentes de marca: planejar RM em 1,5 T quando o alvo é o lado implantado, e considerar o lado de implantação à luz de doença neurológica ipsilateral conhecida ou esperada, preservando a janela diagnóstica.
Ressalva de base instalada: para pacientes legados (CI500/Freedom, CONCERTO/SONATA, HiRes Ultra/90K), confirmar o modelo exato no cartão do paciente antes de autorizar RM. Vários ainda exigem remoção do ímã em 3,0 T, são limitados a 1,5 T (caso CONCERTO/SONATA), podem exigir bandagem ou ser contraindicados (CI22M). A matriz oficial por modelo legado da AB deve ser confirmada no Reference Guide for Radiologists antes de decisão clínica.
Fontes desta página (10)
- https://www.cochlear.com/global/en/mri/mri-nucleus
- https://www.cochlear.com/us/en/professionals/products-and-candidacy/nucleus/implant/nucleus-profile-plus
- https://www.medel.com/en-us/hearing-solutions/cochlear-implants/mri-and-cochlear-implants
- https://www.medel.pro/products/synchrony2
- https://www.medel.com/hearing-solutions/cochlear-implants/concerto
- https://www.advancedbionics.com/com/en/home/explore/processors-and-cochlear-implants/hires-ultra-3d-and-mri-compatibility
- https://www.nature.com/articles/s41598-022-08988-2
- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8940987/
- https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8382638/
- https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371%2Fjournal.pone.0132483
Pendente de revisão clínica · atualizado em 10 de junho de 2026