Guia dos Implantes Cocleares Dr. Luciano Moreira · Equipe SONORA
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Compatibilidade com ressonância magnética

Quem usa implante coclear pode fazer ressonância magnética com segurança nos três modelos atuais, sem precisar de cirurgia para tirar o ímã. O que muda é a qualidade da imagem do lado do implante: o ímã interno gera uma sombra que pode atrapalhar o exame daquele lado, e isso vale para todas as marcas por igual.

A compatibilidade com RM separa-se em duas perguntas que costumam ser fundidas e precisam ser mantidas distintas, porque têm respostas diferentes: (1) o exame pode ser feito com segurança, sem cirurgia? e (2) a imagem do lado implantado será diagnóstica? Para os três implantes atuais a resposta à primeira pergunta é sim, em 1,5 T e 3,0 T, com o ímã no lugar e sem bandagem. A resposta à segunda continua sendo, em grau variável, não — limitação física do ímã interno, independente de fabricante.

Comparativo por modelo

Modelo1,5 T3,0 TRemoção do ímãBandagem/compressãoMecanismo do ímã
Cochlear Nucleus Nexa (atual)Condicional, ímã no lugarCondicional, ímã no lugarNão (nem em 3,0 T)NãoÍmã rotativo que se alinha ao campo
MED-EL SYNCHRONY 2 (atual)Condicional, ímã no lugarCondicional, ímã no lugarNão (opção eletiva por artefato)NãoÍmã S-Vector auto-alinhante, 25% mais forte que a 1ª geração
AB HiRes Ultra 3D (atual)Condicional, ímã no lugarCondicional, ímã no lugarNãoNãoÍmã 3D — 4 hastes magnéticas rotativas, alinham nos eixos X/Y/Z
Nucleus Profile Plus (geração 2019, comercializado)Ímã no lugarÍmã no lugarNãoNãoMesmo sistema RM do Nexa
Nucleus Profile CI532/512 (legado)Ímã no lugar + MRI KitÍmã removido cirurgicamenteSim, em 3,0 TSim, em 1,5 TÍmã axial fixo
Cochlear Freedom / CI24RE / CI422 (legado)Ímã no lugar + MRI KitÍmã removidoSim, em 3,0 TSimÍmã axial fixo
Cochlear CI22M (legado antigo)Condicional só com ímã removível + Kit; senão contraindicadoContraindicadoSim, para qualquer RMSimÍmã antigo
MED-EL CONCERTO / SONATA (legado)Condicional (≤1,5 T), ímã no lugarNão suportado (1,5 T é o teto)Não (em 1,5 T)NãoÍmã fixo
AB HiRes Ultra não-3D (legado)Ímã no lugar + bandagemÍmã removido cirurgicamenteSim, em 3,0 TSim, em 1,5 TÍmã fixo
AB HiRes 90K / CII (legado antigo)Ímã no lugar com bandagem ou remoçãoNão indicadoSimSimÍmã removível

Os três degraus históricos

A evolução não foi linear nem simultânea entre as marcas. Vale entender as três eras, porque a base instalada de pacientes da SONORA está espalhada por todas elas:

  1. Ímã removível obrigatório — qualquer RM, mesmo 1,5 T, frequentemente exigia cirurgia para retirar o ímã (CI22M; AB CII/90K).
  2. 1,5 T com ímã, 3,0 T só removendo — RM de rotina viável sem cirurgia, mas 3,0 T ainda exigia remoção ou era impossível (Nucleus Profile, Freedom; CONCERTO/SONATA limitados a 1,5 T; HiRes Ultra com bandagem em 1,5 T).
  3. Sem remoção em 1,5 e 3,0 T, sem bandagem — a geração atual (Nexa, Profile Plus, SYNCHRONY 2, HiRes Ultra 3D).

Artefato e impacto no seguimento neuro/otológico

Aqui está o ponto clinicamente decisivo e o mais subestimado pelo marketing. Eliminar a remoção do ímã resolveu segurança, não resolveu artefato. O ímã interno gera um vazio de sinal (signal void) grande mesmo nos sistemas modernos. Medições em cadáver com o SYNCHRONY (Scientific Reports, 2022), em 3,0 T:

SequênciaVazio de sinal (3,0 T)
T2-TSE66 × 117 × 98 mm
T2-TIRM121 × 117 × 136 mm
T1-MPRAGE88 × 122 × 140 mm

O que isso significa na prática:

  • Estruturas ipsilaterais ao implante (lobo temporal, fossa posterior, ângulo pontocerebelar, conduto auditivo interno, hipocampo ipsilateral) podem ficar parcial ou totalmente não-avaliáveis. Em estudo dedicado (ímã de quatro hastes, cadáver), a imagem foi diagnóstica em apenas 9 de 14 estruturas ipsilaterais em ao menos um plano.
  • Estruturas contralaterais permanecem bem visíveis em praticamente todas as condições.
  • 1,5 T produz artefato menor que 3,0 T: 7–10 mm menor em T2, e de 12 a 43 mm menor em T1. Para RM de crânio com o ímã no lugar, os autores recomendam preferir 1,5 T quando o alvo é o encéfalo do lado implantado.
  • Difusão (EPI/DWI) — crítica para AVC agudo e para colesteatoma por DWI — é não-diagnóstica com qualquer implante coclear, de qualquer marca. Limite físico, não de fabricante.

Mitigação: preferir 1,5 T quando o alvo é o encéfalo ipsilateral; sequências de redução de artefato metálico (MARS/SEMAC/VAT) e priorizar T2-TSE; e, em último caso, remoção cirúrgica eletiva do ímã por motivo de qualidade de imagem — opção formalmente oferecida na linha MED-EL (SYNCHRONY, SYNCHRONY ST, SYNCHRONY 2, SONATA 2) quando a RM de crânio for indispensável e o artefato inviabilizar o diagnóstico. Estudo em cadáver (PLOS One) demonstrou ganho diagnóstico real com a remoção, tanto em 1,5 T quanto em 3,0 T.

O diferencial histórico da MED-EL e a paridade atual

Por anos, a MED-EL deteve vantagem real e verificável em RM. A linha SYNCHRONY foi a primeira aprovada para 3,0 T com o ímã no lugar, num período em que Cochlear e AB ainda exigiam remoção cirúrgica do ímã ou bandagem compressiva para 3,0 T. Esse diferencial era legítimo, não retórica de fabricante, e influenciou corretamente a escolha de implante para pacientes com previsão de seguimento por RM. Honestidade sobre o presente, porém: esse diferencial foi neutralizado. A geração atual das três marcas — Nexa (ímã rotativo), SYNCHRONY 2 (S-Vector), HiRes Ultra 3D (ímã de quatro hastes) — cobre 1,5 T e 3,0 T sem remoção e sem bandagem. Em segurança de RM, os três atuais estão em paridade. O artefato grande persiste em todos eles, igualmente, porque deriva da presença do ímã, não do seu mecanismo de alinhamento.

Implicação prática: a compatibilidade com RM deixou de ser critério de desempate entre os três sistemas atuais. A decisão deve recair sobre eletrodo, processador, plataforma e suporte local. A MED-EL mantém a opção de remoção eletiva do ímã mais madura e documentada, o que pode pesar em casos extremos de necessidade de imagem ipsilateral de alta qualidade. E, para o seguimento, dois pontos permanecem acionáveis e independentes de marca: planejar RM em 1,5 T quando o alvo é o lado implantado, e considerar o lado de implantação à luz de doença neurológica ipsilateral conhecida ou esperada, preservando a janela diagnóstica.

Ressalva de base instalada: para pacientes legados (CI500/Freedom, CONCERTO/SONATA, HiRes Ultra/90K), confirmar o modelo exato no cartão do paciente antes de autorizar RM. Vários ainda exigem remoção do ímã em 3,0 T, são limitados a 1,5 T (caso CONCERTO/SONATA), podem exigir bandagem ou ser contraindicados (CI22M). A matriz oficial por modelo legado da AB deve ser confirmada no Reference Guide for Radiologists antes de decisão clínica.

Fontes desta página (10)

Pendente de revisão clínica · atualizado em 10 de junho de 2026